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Março / 2018

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

O dia das mulheres, celebrado anualmente em 8 de março, representa as conquistas sociais, políitcas e econômicas das mulheres por meio das lutas feministas desde o século XIX. É uma oportunidade para refletir a respeito de práticas e atitudes machistas, conscientes ou não, em busca de um mundo mais justo e igualitário para todos.

A corrida de aventura é um dos poucos esportes estruturados em cima dessa ideia, pois a sua formação tradicional é a de quartetos mistos, em que homens e mulheres competem juntos, na mesma equipe, sem divisão por sexo, como acontece em quase todos os outros esportes.

A fundamentação para isso reside no seguinte fato: apesar de menos fortes no quesito explosão, no aspecto ultrarresistência as mulheres muitas vezes se equivalem ou mesmo superam os homens. Em muitas equipes, são mulheres que exercem papeis fundamentais como liderança, organização, logística e navegação.

Para celebrar esse dia, escolhemos quatro corredoras de aventura que representam de maneira bem interessante e plural o espírito feminino nesse esporte.

- Rennaly Sousa e Francilene Maciel estrearam no esporte na BOA SHORT 20km 2017 e poucos meses depois já encararam um super desafio na Brou 55km na Serra da Canastra;

- Angelita Coelho também estreou na BOA SHORT em 2017 e hoje vem praticando bastante as corridas de orientação;

- Mariana Abe começou quando morava em São Paulo, em 2004, participando, entre outros, do circuito Adventure Camp e se aventurando até em provas mais longas. Hoje mora em Brasília e já participa das nossas oficinas, ansiosa pela BOA 2018.


Confiram aí. o que elas nos disseram sobre a corrida de aventura. E um feliz Dia das Mulheres para todas as aventureiras do mundo!

O que você fazia de esporte antes da sua primeira corrida de aventura? Como você descobriu a corrida de aventura? Por que ficou com vontade de fazer esse esporte que muita gente (talvez com razão) acha que é coisa de maluco?
Angelita Coelho Treinava corrida de maneira intermitente; dava uns rolês de caiaque e bicicleta urbana por diversão e fazia trilhas. Também treinos de força na academia. Descobri a BOA através dos posts no Facebook anunciando as oficinas de orientação. Fiquei interessada, pois considerei importante ter noções de orientação, uma vez que gosto de estar no mato, fazendo trilhas longas e travessias. Aí convenci o Fred (meu marido) a fazer a oficina, a princípio sem nem pensar na prova em si. Depois de uma ou duas oficinas, do curso de orientação da Federação de Orientação do DF, decidimos nos inscrever na BOA.
Francilene Maciel Corrida de rua e funcional.
Mariana Abe Antes da minha primeira corrida de aventura eu participava de triathlon, natação, atletismo e tiro esportivo. Conheci a corrida de aventura por meio de amigos. Fiquei com vontade de fazer esse esporte por ser um esporte completo, ser cheio de desafios, por ocorrer em meio a natureza e desenvolver o espírito de equipe, compreensão e liderança.
Rennaly Sousa Conheci a corrida de aventura através de um grande amigo, dinossauro e entusiasta da aventura. Ficava admirada com os relatos dos desafios, imaginando que eu não daria conta de tamanha maluquice. Mas a verdade é que sempre fui do mato e da aventura. Curiosa por esportes, me permito experimentar algo novo sempre que surge uma oportunidade. Já praticava trekking, corrida em asfalto, ciclismo, escalada e corrida de orientação. O gosto pelo desafio me fez ver na corrida de aventura a oportunidade de aliar tudo isso.

 

Você acha que o fato de morar em Brasília contribuiu para você se interessar pelo esporte? De que forma?
Angelita Coelho Acho que sim, uma vez que adentrei nesse universo através das oficinas da BOA. Não tenho certeza, mas acho que outros organizadores de corridas de aventura não disponibilizam vias tão amigáveis de entrada.
Francilene Maciel Sim, porque há um contato maior com esportitas e o fato de frequentar mais parques.
Mariana Abe Eu conheci a corrida de aventura quando morava em Pirassununga/São Paulo, depois que saí de lá não tive oportunidade de voltar a participar. Em Brasília tomei conhecimento da BOA pela internet e vi que aqui oferece uma estrutura ótima para voltar a correr, pois Brasília oferece uma facilidade para treinarmos todas as modalidades. Além do que, a BOA oferece oficinas de todas as modalidades para nos ambientar com cada uma e também a possibilidade de fazermos uma prova short para iniciar.
Rennaly Sousa Morar em Brasília me deu um maior acesso a vários esportes outdoor. Isso contribuiu significativamente para que eu começasse a flertar com a possibilidade de uma corrida de aventura. Mas essa ideia só veio depois de conhecer a Brasília Outdoor Adventure e seus organizadores, sempre difundindo o esporte e dando a oportunidade de atletas principiantes através de palestras, oficinas, treinos e simulados.

 

Na corrida de aventura, é comum homens e mulheres competirem juntos, seja na formação mais tradicional (quarteto misto), seja em duplas mistas. Isso é relativamente raro na maioria dos esportes, em que há categorias masculina e feminina separadas. O que você acha disso?
Angelita Coelho Acho importante, pois muitas mulheres ainda não tem preparo ou coragem para encarar uma prova dessas, assim, se as poucas que se interessam só tivessem como opção a corrida solo ou tentar achar uma outra mulher entre as poucas existentes, seria mais difícil. Entretanto, acho muitíssimo importante que os organizadores, da mesma maneira que buscam atrair novos aventureiros, se empenhem, especialmente, em atrair mais mulheres, aumentando o número de duplas femininas ou quartetos com mais de uma mulher.
Francilene Maciel Acho ótimo, pois sinto que o esporte valoriza o trabalho em equipe e não não a competição de gêneros.
Mariana Abe Excelente para um interação entre homens e mulheres, podendo aproveitar as particularidades de cada um para um melhor desenvolvimento da equipe.
Rennaly Sousa O que me fez apaixonar pela corrida de aventura foram as possibilidades. Desde a formação das equipes mistas, até a interação e a energia que vibra dessa mistura entre um bando de malucos e e o esporte outdoor.

 

Qual(is) característica(s) das mulheres você avalia serem um diferencial na corrida de aventura?
Angelita Coelho Não sei responder e não tenho certeza se existe esse negócio de características das mulheres/características dos homens. Na minha opinião, quase sempre isso é uma generalização que mais atrapalha que ajuda. Acho que pra ambos os sexos são importantes a animação, resistência, bom humor e gostar de estar em ambiente natural.
Francilene Maciel Nunca pensei nisso, mas acho que a vontade de superar limites é uma característica que noto em mim e nas pessoas que conheço, que praticam o esporte.
Mariana Abe Detalhista, emotiva, compreensiva, guerreira e multitarefa.
Rennaly Sousa Para ser um praticante de corrida de aventura, além da coragem, o gostinho pelo desafio e a forma descontraída de lidar com as adversidades tem que estar no sangue. Isso nós mulheres temos de sobra.

 

Lugar de mulher é onde ela quiser, certo!? A corrida de aventura é um lugar legal? Você recomenda pras amigas? Por que?
Angelita Coelho Certíssimo. Muito legal. SIMMMM. Porque é muito legal :-)
Francilene Maciel Sim, Porque a corrida de aventura de faz perceber o quanto somos capazes de vencer desafios.
Mariana Abe Com certeza!! É um esporte em que estamos fazendo atividade física em contato com a natureza, deixando o estresse do dia a dia de lado, vencendo vários desafios, nos superando cada vez mais, aprendendo a trabalhar em equipe e liderar, e fazendo novos amigos.
Rennaly Sousa Ao contrário do que imaginava, a corrida de aventura é um esporte muito permissivo, divertido (sofrido, é verdade), mas cheio de superação e satisfação. É uma forma de se reconectar, com você, com pessoas de alto astral, com a nossa natureza. Mais do que recomendado esse esporte. E se prepare, que será a sua nova paixão!

 

 

Novembro / 2017

RELATO – BOA RACING TEAM NA EXPEDIÇÃO CHAUÁS PERUÍBE – 120 Km

PEDRO LAVINAS - BRASÍLIA OUTDOOR ADVENTURE

Primeiro assista ao vídeo, depois leia o relato.

Desde o ano passado venho lutando com uma lesão no quadril. Com muita paciência, fui melhorando aos poucos e queria me testar para ver como o corpo responderia. Sem pretensões competitivas, pretendia observar como seria correr com o Lico, lenda da corrida de aventura desde seus primórdios, e com a Rejane, atleta do Mountain Bike que participou da BOA 2016, gostou da brincadeira e aceitou nosso convite para encarar uma prova um pouco mais longa. Chauás 120km caiu como uma luva: perrengue garantido, e se fosse pra Rejane desistir do esporte (como acontece com muitos atletas de bike ou triathlon que experimentam a corrida de aventura mas pulam fora com as mais diversas desculpas verdadeiras), já seria agora. Para fechar a equipe, o véio-de-guerra Leandrinho, com quem já tinha corrido algumas provas, que finge que não treina mas está sempre em boa forma, fora o alto astral.

Eu, Rejane e Lico fomos de carro (1300km só de ida... nós de Brasília estamos acostumados, fica o recado pra galera de RJ e SP que não vem correr a BOA porque “É LONGE!”), dormimos em Uberaba (obrigado Dona Maroca, tia do Lico, pela hospitalidade e desculpe a bagunça!). O Leandrinho foi de avião e ônibus, nos encontrando em Peruíbe sexta à tarde. Pegamos o mapa e achamos que seria bom pra gente, logo após um curto trekking na largada já teríamos todo o MTB da prova, 75km, o que seria bom pra Rejane e portanto para a equipe. Logo na largada percebemos que o farol do carro tinha ficado ligado e paramos pra desligar. Não seria nada bom uma bateria arriada no domingo de madrugada, quando chegássemos cansados e com frio. Abre mochila, saco estanque, saco zip, pega a chave, abre o carro, desliga o farol, etc ,etc etc) e lá estávamos nós largando em último e o Leandrinho maluco perguntando pra Rejane onde eu e Lico estávamos. Perdemos um pouco de tempo na fila do singletrack mas nada muito grave. Na descida do PC 3 vimos a Tubaína entrando numa trilha anterior à correta, ficamos na dúvida mas confiamos em nossa navegação e seguimos em frente. Pegamos as bikes no PC4, montamos um pelote nervoso no asfalto e no começo da subida da serra já estávamos disputando a liderança com a Lobo Guará. Claro que aquela conversa mole de “sem pretensões competitivas” acaba assim que surge uma disputinha. Estávamos nos sentindo bem e forçamos o ritmo, assumindo a liderança da prova - para perdê-la novamente em errinhos bestas de navegação, rapidamente corrigidos. Esse ciclo se repetiu algumas vezes durante a prova, virando até motivo de piada. Um outro momento divertido foi quando o Caco, meu primeiro treinador de corrida de aventura e exemplo de atleta e pessoa, nos alcançou e ultrapassou. Estávamos eu, ele e Lico pedalando juntos, a “trupe do quadril bichado”. Ele mostrou que está 100% recuperado e foi-se embora num ritmo alucinante. De volta pro asfalto, montamos novamente um pelote a 30km/h e aí a falta de treinos em ritmo mais intenso pesou pra mim. Tentei revezar e puxar um pouco, rapidamente abri mão e em pouco tempo estava lutando pra conseguir ficar na roda. A Rejane meio que perdeu a paciência com aqueles paus-de-rato e resolveu puxar o pelotão, mas foi inteligentemente aconselhada pelo Lico a se poupar, porque teria ainda muito trekking e canoagem pela frente. Chegando na serrinha começamos a subir e eu fui ficando um pouco pra trás. Rapidamente chegou a descida e voltamos pra estrada de terra. O Leandrinho carregou minha mochila e ao chegar na transição no PC 8, ainda liderando a prova nos quartetos, eu já me sentia bem melhor.

Equipe BOA

Enquanto nos aprontávamos a Lobo Guará chegou e assim que saímos a Tubaína apareceu. Apertamos o passo, chegamos em primeiro no PC9 e entramos na trilha para o “crux” da prova: um trecho em que uma trilha acabava e tinha um “caminho sugerido” de cerca de 500m até a trilha aparecer novamente. Seria necessário navegar com muita precisão para encontrar a trilha novamente. Um pouco antes da trilha acabar a Tubaína nos alcançou e fomos juntos até o ponto em que ela acabou. Eles rapidamente atravessaram um córrego que (agora) acreditamos que não estava no mapa e seguiram. Refletimos um pouco e fomos mais ou menos pelo mesmo caminho. Fomos no azimute correto mas não encontramos a trilha. Pela leitura do terreno, sabíamos que mantendo a direção acabaríamos batendo em uma trilha perpendicular por onde sairíamos do mato, mas a progressão ali foi lenta, entre andar lateralmente procurando resquícios de trilha ou por dentro do riacho que certamente desceria na direção correta. Nisso já era final da tarde e deu pra perceber no semblante da Rejane que ela estava desconfortável em anoitecer e estarmos ali rasgando mato. Mas conseguimos sair do trecho com a última luz do dia e a “tromba” se desfez, novamente dando lugar ao sorriso.

Chegamos na transição já 20 minutos atrás da Tubaína e aceitamos isso numa boa, eles são uma excelente equipe e vêm conquistando bons resultados de forma consistente. Faríamos a nossa parte e se eles errassem estaríamos ali, mas não nos mataríamos de fazer força para tentar tirar essa vantagem. A canoagem foi magnífica, as águas calmas refletiam o céu estrelado. Remamos num ritmo tranquilo, contornando uma ilha, e teríamos que pegar um braço de rio que desaguava no canal em que estávamos. Nos descuidamos da navegação e, antes de chegar no ponto correto, pensei que já estávamos lá. Mas a entrada não aparecia. Fomos um pouco pra frente e nada, até que vimos um pequeno canal, coberto com galhadas daquelas que só dá pra passar deitado. Pensei “tava tranquila demais essa Chauás até agora mesmo... só podia ter coisa errada!”. O azimute batia, mas tava muito ruim pra ter que progredir mais de 2km ali. Mas... Chauás é Chauás,né? O Fran (diretor de prova) tinha pedido dois cabos de reboque como itens obrigatórios na canoagem, e a única coisa que veio à cabeça é “f*%eu. Vamos ter que descer da canoa e arrasta-la nesse mangue maldito.” Mas antes de tentar isso, resolvemos voltar e procurar mais pela entrada correta. O Lico argumentava que tinha que ser algo bem mais largo, mas ele também tinha se descuidado do mapa e não estava muito certo de onde estávamos no momento em que tive dúvidas. Não achamos a tal entrada. Entramos de novo no canal pra ver se mais pra frente abria um pouco. Que nada, só piorava. Não podia ser ali. Só então é que me toquei que o nome do PC virtual era “Porto Barreirinho”. Sendo um porto, tinha que ser acessível a embarcações. Ponto final, não podia ser ali. O Lico estava certo. Tocamos mais pra frente e achamos facilmente a entrada. No caminho pro PC já encontramos novamente Lobo Guará voltando (pela enésima vez eles acertaram e nós erramos). Batemos o PC e completamos a canoagem enquanto a Lobo estava saindo. Sabíamos que a Tubaína não conseguiríamos mais buscar, mas estávamos na pilha pra disputar o segundo lugar.

Nos abastecemos de um lanchinho, deixamos os remos e saímos rapidamente pro último trekking. Tínhamos falado pra Rejane que na saída da canoagem ela sentiria muito frio mas acho que ela não acreditou que seria tanto. Tranquilo, dez minutos trotando e estaríamos aquecidos de novo. Dito e feito. Enquanto isso, a Lobo Guará corria a poucos metros na nossa frente no estradão. Eu não tenho a menor ideia de como isso aconteceu, mas tanto eles como nós perdemos a entrada certa no mapa. Estava MUITO claro o local, inclusive iluminado, e além disso o mapa mostrava que a entrada era logo antes da subida começar. Mesmo assim, eles erraram e nós erramos também. Quando os encontramos, eles já estavam voltando. Resolvemos não segui-los e nos localizar perfeitamente antes de prosseguir. Voltamos, encontramos a entrada certa e eu não acreditava como podíamos ter errado algo tão besta. Colocamos um ritmo forte, ultrapassamos duas duplas e logo encontramos a Lobo novamente. Aí não teve jeito: na navegação não tava indo, teria que ser na pernada mesmo. Nada agradável disputar corridão na praia com 100km e 15h de prova nas costas, mas foi o jeito. Rejane mostrou que estava escondendo o jogo dizendo que não corria, engatou uma quinta marcha ali e depois de uma saudável disputa conseguimos abrir uma curta vantagem. Uma pena não termos feito esse trecho de dia, porque o lugar era lindo. Praias selvagens cercadas por morros que cortávamos subindo e descendo trilha e assim passando de praia em praia. Finalmente chegamos na natação e sem muita conversa nos jogamos na água e atravessamos. Batendo queixo de novo, corremos pelas ruas do Guaraú pra chegar logo e completar a prova com um valoroso segundo lugar.

Equipe BOA

Deixo aqui meu muito obrigado aos meus colegas de equipe Lico, Leandrinho e Rejane, vocês foram excelentes parceiros. Parece que o objetivo foi alcançado, a Rejane curtiu a brincadeira! Em 2018 vamos com tudo rodar esse Brasil conhecendo os lugares mais bonitos e fazendo o que gostamos: correndo aventura!

Rejane Maja agradece o apoio da Ciclista Fênix e Grupo Caça-Pedal.
Frederico Gall agradece a Jah.
Eu agradeço à Fit & Move Centro de Treinamento, ao Hospital Sarah Brasília e ao Instituto Montenegro pelo suporte fundamental para a minha recuperação, fortalecimento e retorno ao esporte; aos nossos apoiadores Oficina Multisport, Akan Açaí, Trekking Brasília e Blog Mochila Insana; ao meu sócio Diogo, por estarmos aos poucos acrescentando tijolinhos na muralha da história da corrida de aventura brasiliense. Aos atletas novatos da BOA que estão empolgadíssimos com o esporte e sempre nos mandam as melhores energias; e, especialmente, à Ana Paula que foi super parceira e guerreira nas provas que encaramos enquanto eu tratava minha lesão e encarou a minha ausência prolongada durante essa viagem dando todo o suporte para que tudo ocorresse, como sempre, da melhor forma possível. Te amo!

PS: No domingo, o único porém de toda a aventura, que fora isso foi perfeita. Por pressão de atletas que queriam antecipar em uma hora sua chegada em São Paulo, a premiação foi realizada enquanto buscávamos nossas bikes na transição, sem sinal de celular. Tínhamos nos programado para estarmos presentes na hora marcada, e assim o fizemos, pontualmente. Infelizmente, as equipes premiadas já tinham ido embora. Não é o caso, mas e se tivéssemos um patrocinador bancando a viagem, interessado em publicar nossa foto com a sua marca no pódio? Com que cara diríamos pra ele que não foi desleixo da nossa parte perder a hora da premiação, mas sim que o horário combinado não foi cumprido?

Não temos como negar que achamos uma falta de consideração com quem se comprometeu a viajar por 2500 quilômetros, em quatro dias, para estar presente no evento. Que alguns atletas cheguem em casa uma hora mais cedo que o previsto é mais importante que cumprir o combinado? Não se trata aqui de apontar responsáveis ou esperar retratações. Já aconteceu, não importa. É apenas uma crítica construtiva com o intuito de gerar reflexão por parte de atletas e organizadores, para que na próxima vez em que surgir uma situação semelhante, a atitude seja diferente. Cumprir o combinado é importante para que o esporte que amamos seja cada vez mais reconhecido como sério e profissional.

 

Outubro / 2017

BOA NA ADVENTURE FAIR EM SÃO PAULO

PEDRO LAVINAS - BRASÍLIA OUTDOOR ADVENTURE

Adventure Fair 2017

Galera, a partir de hoje (27 de outubro de 2017) estaremos no Stand Brasil Central junto a muita gente bacana pra divulgar o que tem de melhor no ramo de turismo e esporte de aventura aqui no nosso Cerradão.

Vamos aproveitar também para fazer contatos com representantes das marcas mais fortes do ramo em busca de apoios para a corrida de aventura e prêmios para nossos atletas.

Quem estiver em Sampa, dê um pulo lá. Os demais, acompanhem nossas stories no Instagram, transmitiremos muita coisa bacana. Veja a programação completa em www.adventurefair.com.br.

 

Março / 2017

CARTILHA DO CORREDOR DE AVENTURA INICIANTE

CAMILA NICOLAU -  OFICINA MULTISPORT

A corrida de aventura é um esporte onde passamos a maior parte do tempo fora da nossa zona de conforto, mas podemos amenizar o nosso perrengue e curtir uma prova pra valer levando só boas lembranças.

Abaixo listei alguns dos principais erros que cometemos ao iniciar nesse esporte e como podemos corrigi-los.

  • Hidratação • Muitos nem se dão conta, mas o primeiro sintoma da queda de performance numa competição é a desidratação. O sol do Cerrado é forte e o clima será seco no dia da prova, portanto pense em como armazenar bastante água (em garrafinhas e saco de hidratação) e planeje onde serão os pontos de abastecimento. O ideal é o consumo de 800ml a 1 litro de água por hora. Se você quiser acrescentar algum carboidrato a sua água, lembre-se que uma vez exposto ao sol essa mistura irá estragar rapidamente! Beba 200 ml a cada 15’, uma boa solução é colocar o relógio para apitar, assim você não irá deixar passar!
  • Alimentação • Muitas vezes nosso estômago não está nas melhores condições e a vontade de ingerir algo não vem. Consuma pequenas porções de comida a cada 30’, pode ser uma bananinha, um gel, uma fruta, castanhas... e prepare um sanduiche ou lanche mais reforçado para cada 3 horas de prova. Normalmente ingerimos entre 200 e 300kcal por hora de prova dividas em porções variadas. Não espere a fome ou o cansaço chegarem para comer e beber! E não experimente nada novo no dia da prova, ingira apenas o que estiver habituado.
  • Bolhas e assaduras • Ficar molhado e suado por muitas horas pode ser muito desconfortável, principalmente quando as assaduras e as bolhas começam. O melhor remédio é a prevenção, assim evitamos que isso seja um incomodo. Para assaduras leve um creme, tipo hipoglos ou similar e aplique nas áreas de atrito antes mesmo de largar: entre as pernas, em baixo do braço, onde as alças da mochila encostam nas costas... será necessário reaplicar o creme durante a prova leve-o. Para bolhas o ideal é na noite anterior a largada com os pés bem limpos e secos aplicar um esparadrapo nas áreas de atrito, procure fazer um bom trabalho não deixando partes sobrepostas que podem gerar ainda mais atrito, isso deve manter o seu pé livre de bolhas durante a competição.
  • Ameaças • Ficar sem comer, desidratar, ter assaduras e bolhas são algumas das ameaças que já podemos listar aqui. Essa lista é infinita e cada um irá acrescentar novos itens a medida que for ganhando experiência. Uma ameaça pode te tirar da prova e te frustrar bastante, por isso é importante reconhecer esse momento para saber como lidar e prosseguir. Posso acrescentar mais alguns itens para ajudar, mas pense no que pode dar errado, e se der, como posso solucionar, assim terá menos surpresas desagradáveis! Pane mecânica com a bicicleta, esquecer algum item obrigatório e precisar dele, não se dar bem com seu companheiro de equipe, errar a navegação, não treinar adequadamente as modalidades (principalmente a canoagem), pensar que NADA vai dar errado... Prepare-se para o inesperado!
  • Equipamentos • Procure testar seus equipamentos antes da competição e saber como funcionam adequadamente. Assim como a comida, não utilizem nada novo no dia da prova, principalmente o tênis! E da mesma forma, equipamentos muito velhos podem furar, rasgar, te machucar e dar ainda mais trabalho!
  • Previsão de tempo de prova • Sabendo as distâncias e modalidades você pode prever o seu tempo de prova baseado em seus treinos e aptidão física. O tempo total estimado por você irá ajudá-lo a planejar a quantidade de água e comida que deverá levar em cada trecho e mesmo que esse tempo não seja preciso no dia da competição você saberá o quanto de água e comida tem disponível para não faltar. Com o mapa na mão (ou seja, na noite anterior a competição) você poderá afinar ainda mais essa tabela de tempos baseando-se nas subidas e no tipo de terreno que irá percorrer.

Mantenha-se positivo a todo momento e procure tirar boas lições de cada obstáculo que a corrida trouxer!

Boa prova a todos!

 

Março / 2017

EXPEDICIÓN GUARANI 2017

la busca por el Full Course

DIOGO DE SORDI -  EQUIPE NOSSA VIDA / BOA
2º Lugar na Expedição Guarani • Etapa do circuito mundial de corrida de aventura / ARWS

Encontro de vontades e sentidos

Em 2015 corri a Expedição Guarani com a equipe argentina Trail del Viento e conseguimos um excelente 4° lugar. Uma prova desafiadora, muito bem organizada e a inscrição mais barata do circuito mundial.

Este ano fui convidado por Elio, paraguaio muito buena onda, mas que infelizmente não pode mais correr por problemas pessoais. Com as passagens compradas eu precisava de outra equipe. Não consegui ninguém em Brasília e isso me preocupava, mas tudo se resolveu em poucos minutos no dia 31 de dezembro. Me dirigia para uma fazenda na trijunção (limite Bahia/Minas/Goiás) quando Jonas Junckes respondeu minha mensagem pelo Facebook. Havíamos disputado em 2015 a terceira colocação e ele havia me vencido, navegando também para uma equipe argentina. Troquei a direção com a minha esposa e rapidamente, antes que o sinal do celular acabasse, já tínhamos um time. Jonas me falou que, juntamente com Pedro Pinheiro, estavam procurando outros integrantes. Enviei o convite para Leticia Morro, paraguaia que já integrava a equipe com Elio, que aceitou com entusiasmo repetindo inúmeras vezes: “Solo quiero el full Course. Full Course!” Mesmo a milhares de quilômetros, passamos muito felizes aquele réveillon. A equipe Nossa Vida/BOA estava formada.

 

Pré Prova

Na semana seguinte Leti e sua amiga Pati, que ainda terminaria correndo a Exp. Guarani com a outra equipe brasileira - Tubaina, foram para Florianópolis de férias e realizaram longos treinos de trekking e Canoagem com Jonas e Pedro. Parecia que já haviam combinado tudo.

Enquanto isso meus treinos seguiam forte até que sofri um acidente que poderia ter sido grave. Uma fechada de uma carro me jogou no asfalto. Passei duas semanas sem treinar canoagem.

Antes mesmo que a equipe fosse formada, eu já havia planejado ir ao Paraguai no final de janeiro correr uma prova mais curta de 120 km com Elio e aproveitar para buscar uma bike. Jonas e Pedro decidiram uma semana antes que iriam dirigir até Asunción e correr a prova. Uma ótima oportunidade para entrosar a equipe. Nos encontramos no QG Central (casa da Letícia em Asunción) e conversamos bastante. No outro dia largamos muito fortes e eu estava como uma criança, empolgado com minha nova MTB. Após um pedal curto, remamos bem por 7 km e saímos sozinhos do lago. No trekking de 25 km cruzamos algumas vezes com a equipe de Urtzi (navegador da equipe Columbia vidaraid e mapeador da Exp. Guarani). Conseguimos abrir 30 min do segundo colocado no final da canoagem. No pedal final nos complicamos porque o mapa estava totalmente desatualizado e em outra escala, o que demoramos a descobrir, já que não havia nada escrito neles. Depois os problemas pioraram. Jonas e Pedro sentiram desidratação nesse pedal e precisamos parar para recuperar. Mesmo com todos os problemas terminamos a prova em 3º lugar. Era preciso melhorar muito mas eu fiquei satisfeito porque ainda tínhamos 1 mês.

Tudo corria bem até que, faltando uns 5 dias para a largada, Jonas me liga pra falar que estava há mais de 1 semana com diarreia forte e que não tinha condições de correr a prova. Eu e Pedro começamos a procurar algum substituto. Todos que pensamos ter a cara da equipe não conseguiram desmarcar seus compromissos pessoais faltando tão pouco tempo. No último momento para partir, Pedro me ligou dizendo que não restava outra escolha e que iria passar na casa do Jonas e levá-lo para a prova. Eu tinha certeza que poderíamos iniciar mais lentos, mas que até o metade da prova ele já estaria bom. O que eu não sabia é que iria se sair tão bem.

 

A Prova

Cheguei já no sábado de manhã, 2 dias para a largada, e realizamos o check dos equipamentos e trâmites finais. Fomos alojados em uma casa incrível beira lago com piscina e toda estrutura. No domingo, churrasco típico para relaxar a tensão da largada enquanto organizávamos os últimos detalhes. Na nossa casa só havia mais 1 equipe, mas em outras o big brother chegava a ter 5 equipes por casa.

Na segunda-feira antes das 6 horas, enquanto Letícia e Pedro preparavam os caiaques, eu e Jonas analisamos os mapas. Pouco tempo para 20 mapas e a conclusão era a mesma, de que os trekkings decidiriam a prova. Largamos às 8 horas para uma canoagem de 55 km. O primeiro trecho no lago era tranquilo e, apesar dos barcos sitontop, com fundo liso, parecerem ducks, já conseguimos uma boa colocação. Após 2 PCs entramos no rio salado que era estreito e corria bem. Após aproximadamente 35 km remando, senti meu ombro, da antiga lesão do atropelamento. Foi uma dor quase insuportável. Pedi para trocar com o Jonas que assumiu o leme do meu barco. Remamos no mesmo ritmo e finalizando em 4° lugar aquela canoagem.

Sabíamos que havíamos novamente começado muito forte e que poderíamos pagar por isso. O maçarico estava no máximo (sensação térmica de 45°C) e parecíamos bem localizados, mas as referências foram sumindo e passamos colados no PC. Perdemos a noção da velocidade e quanto estávamos fora do azimute. Até que encontramos o rio Salado, só nesse momento percebemos o erro. Uma decepção porque havíamos começado tão bem. Foi preciso sentar para entender nosso erro e encontrarmos uma solução: contornar por uma pasto ao invés de rasgar todo charco de volta. Poucas horas depois encontramos o PC e várias equipes perdidas no início da noite. Havíamos perdido a confiança e a energia. Saímos em busca do PC5, que exigiam maior concentração. Traçamos o azimute e contei passos, o encontramos rápido. Logo achamos o PC 6 e fomos acertando e retomando também a energia. Daí pra frente a navegação fluiu. Saímos para uma pernada de 89 km de bike. O calor castigava e depois da metade do pedal tínhamos que parar a cada 10 km para pegar água e molhar a cabeça. Ultrapassamos e fomos ultrapassados pelas mesmas equipes que também se arrastavam. Letícia não sentia o calor e até se irritava com nossa fraqueza, mas logo ela viu que todas as equipes precisavam parar com tanto calor. Eu sentia uma forte ardência nos olhos que piorava a cada hora. Por sorte eu tinha um colírio no meu kit pessoal que já não estava adiantando muito. Passamos por um lugar incrível com várias formações rochosas e muitas vias de escalada, onde realizamos um rappel com as bikes nas costas.

Paramos em uma venda para uma coca gelada e vi um óculos de sol velho no balcão. O senhor não queria vender e no desespero paguei 20.000 guaranis. Uma das lentes caiu em menos de 5 km dali. Chegamos até bem colocados na transição mas precisávamos dormir. Enfrentar um trekking de 55 km virando a 2a noite não seria uma boa ideia e sabíamos que esse era o crux da prova. Tive que ficar 30 min na ambulância limpando e recuperando da infecção nos olhos. Pedro e Jonas foram para piscina. Preparei minha mochila, comi e fui me juntar aos outros que dormiam na beira da piscina. Não foi uma boa ideia. O barulho e o calor não me deixaram dormir.

Quando saímos para o trekking já era noite e quase todas as equipes já tinham iniciado essa pernada. Com 15 minutos minha camiseta limpa estava completamente encharcada de suor e caminhamos em ritmo bom mas sem forçar. Eu e Jonas discutimos sobre a estimativa de velocidade e opções onde poderíamos arriscar algum shortcut, o que quase não fizemos. Os 4 primeiros PCs não tivemos muita dificuldade em encontrar. Só restavam 15 PCs nesse trekking. Estávamos confiantes que esse era o caminho certo até que a trilha tomou uma direção ruim. Chegamos em uma fazenda onde a trilha não seguia. Cansados, decidimos dormir uns 20 minutos. Com a cabeça fresca resolvemos margear o rio mesmo sem trilha. Embora nós tenhamos perdido um pouco de tempo, sabíamos onde estávamos. Foi um PC que deu trabalho e várias equipes passavam de um lado para o outro sem encontrá-lo. Seguimos até uma cascata (PC27), logo após algumas picadas de vespa no PC26. Perdemos um alguns minutos no PC28, um dos mais escondidos, e para o seguinte, decidimos ser mais conservadores e tomar o maior caminho, descendo e subindo a serra. Tomamos banho de rio e sorvete e no PC 30 descobrimos que havíamos feito uma ótima estratégia.

Os checkpoints seguintes foram belíssimas cachoeiras que refrescaram nosso calor. Daí para frente o trekking consistia em escaladas de pequenos cerros. No Mbatoví chegamos a noite e encontramos a equipe Euskat. Subimos por uma parte perigosa. Eu carregava a mochila do Pedro, que sofria com os pés machucados, mas tive que entregá-la porque não conseguia escalar as pedras com 2 mochilas. Quando me dei conta estava no topo de uma via de escalada com os grampos muito novos. Ventava muito e foi bem tenso pular de pedra em pedra até o PC no topo. Não perdemos tempo e já buscamos o próximo PC, uma bela árvore retorcida dentro da floresta. Paramos cansados no pé do penúltimo cerro. Perto das 4 horas da manhã, depois de vários dias de muito calor fazia um vento de abrir os braços. Estavámos bem cansados e terminava a 2a noite naquele mesmo trekking. Decidimos dormir e foi o sonho dos deuses. Acordamos revigorados com sol nascendo e enquanto guardávamos nossas mantas térmicas, uma equipe entra na trilha. Quando decidimos dormir no pasto, ao lado das vacas, não percebemos que paramos ao lado da subida. Aceleramos e alcançamos a equipe Trail del Vento que perto do topo desviou para esquerda enquanto nós atacamos o PC primeiro. Corremos por uma trilha e logo entramos na mata. Jonas bem focado encontrou a trilha e logo achei uma embalagem de comida liofilizada no chão que guardei com meu lixo. Descemos muito forte e encontramos um touro na mata qua assustou e correu mostrando a trilha certa. Pegamos água no penúltimo PC e subimos o último cerro (Jhú) escalando grandes blocos e segurando em raízes. O último PC do trekking ficava em um mirante que mostrava o AT e a cidade de Paraguari. Na descida combinamos que independente da colocação iriamos focar na nossa linha do tempo para alcançar o Full Course. Quando chegamos no AT éramos 3º e o 2º colocado não estava muito distante. Estávamos descansados e motivados para pedalar. Mas essa longa pernada de bike com mais de 100 km começava com 12 km no trilho de trem abandonado e completamente fechado de espinhos. Em 1 hora conseguimos andar 1km. Desesperador, mas era a única opção. Em alguns lugares era necessário engatinhar para passar e puxar a bike e em outros, quando conseguimos subir na bike, haviam muitas pedras e pontes quebradas que tínhamos que nos equilibrar para passar. Em um córrego desses encontramos com a equipe espanhola e um integrante estava deitado no chão se recuperando. Após 4 horas, 4 pneus furados e as canelas todas cortadas, vencemos a trilha e começamos a pedalar. O ritmo foi forte e o calor já não perturbava tanto. Paramos pouco e Jonas fez uma navegação fora de série. O pelote funcionou e algumas vezes não consegui fazer o backup pedindo para me colocar novamente no mapa. Essa pernada passou rápido e chegamos na entrada da canoagem cansados e ao mesmo tempo querendo manter o ritmo, pois não sabíamos qual era nossa vantagem dos que vinham em seguida.

Perdemos um pouco de tempo arrumando os barcos, mas isso foi bom porque eu e Leticia viramos logo no começo. Sorte que as mochilas estavam clipadas. Perdemos somente algumas garrafas de água. O rio era bem estreito e corria forte. Na primeira hora usamos mais as mãos para levantar os galhos do que para remar. A mata era tão fechada que, em alguns momentos, precisávamos observar para onde a água corria para continuar seguindo o fluxo. Me recordo que de repente perdemos o fluxo e ficamos presos num remanso. Não encontramos para onde o rio seguia. Nós quatro estávamos alucinados de sono. Agora lembrando parece engraçado, ninguém se entendia e paramos para um cochilo. Não conseguimos dormir porque vários tipos de insetos estavam nos mordendo. Voltamos rio acima até que achamos a água correndo para dentro das árvores. A mata foi abrindo e conseguimos remar. Eu estava preocupado com meu ombro que não reclamou e então segui constante. O sol nasceu num bonito dia e em algumas dezenas de vezes naquele rio, com milhares de meandros, pensamos estar passando no mesmo lugar. Eu não queria parar e Jonas, Pedro e Letícia alternaram o sono. Conectamos os barcos e enquanto dois dormiam, dois remavam. Leticia me oferecia comida na boca e não parei mais. Foram mais de 14 horas remando sem parar. Passamos por uma ponte e vimos Togumi e Martim (fotógrafos) e pensamos que estávamos perto do AT e, ainda, que as outras equipes se aproximavam. Ainda faltavam algumas horas e, mesmo assim, tentamos aumentar o ritmo. Chegamos na transição e eu estava destruído e sem voz. Na mão esquerda 8 bolhas. Só faltava a menor pernada de bike (72 km). Comemos uma ótima refeição oferecida nas transições e saímos fortes, ignorando a trepidação, numa longa subida estilo paris-roubaix. Essa noite o sono bateu e consegui sonhar na bike. Por sorte acordei desclipando o pedal e correndo por cima da bike que ficou lá atrás. Tapa na cara, água na nuca e Full Course!! Um falava para o outro. Não encontramos a trilha certa e enfrentamos um charco empurrando a bike a talvez 0,5 km/h. Eu só tentava refazer os cálculos da nossa linha do tempo, mas não conseguia calcular. Pedro e Leticia não se entendiam mais e precisavam de intérprete. Então observamos algumas luzes vindo rápido e percebemos que a trilha estava do nosso lado. Cruzamos com algumas equipes cortadas, que não haviam feito a canoagem de 90 km. Cansados erramos um pouco a navegação e já estávamos irritados. Para piorar minha corrente estourou. Pedro fez o reparo como um pitstop da Ferrari e na sequência o pedal da Leticia quebrou. Nesse momento eu tinha certeza que a Columbia VidaRaid já havia nos passado por algum outro caminho que erramos. Quando entramos no country club faltava muito pouco e sabíamos que havíamos conseguido o Full Course. No entanto, não imaginávamos ter conseguido uma 2ª colocação na etapa Sulamericana do Circuito Mundial de Corrida de Aventura (ARWS), somente 10 minutos na frente da atual 2ª colocada no ranking mundial. Foi emocionante! Leticia nao parava de falar: - Full course! Pedro não conteve o merecido choro. Comemoramos muito nesses dias, mas meu choro veio quando cheguei no hotel e liguei pra casa. 10 dias longe das minhas meninas e quando Yara me colocou para falar com a pequena que estava fazendo 6 meses não me aguentei. A voz não saiu.

Tenho muito que agradecer meus companheiros de equipe. Fomos verdadeiros guerreiros e superamos não só cansaço, calor, sono, mas também as dificuldades de se correr em uma equipe que pouco se conhecia e colocar as diferenças atrás dos objetivos. Merecemos!

Gracias Gustavo y Urtzi por tan fantástica organización y desafiadora carrera!

Obrigado meus treinadores da Oficina Multisport, Gui, Cami e Arnaldo que além de me ajudarem na preparação física, me orientam na preparação da logística de prova.

Meu guru Jk ( da Fisioterapia Inovar) que conseguiu matar minhas panes antes da prova.

Meus personals coach indoor Vini, Gilmar e Vitor da Fitmove Centro de Treinamento.

Meu mestre-mecânico Leandro e o apoio imensurável do Marcão da Cycling Bike Club.

Meu parceirão Pedro da BOA e os companheiros de treinos da Caliandra multisport. Enricão e Leandrinho ajudaram muito no pedal. Os companheiros de treino do Torresmo Raid e Oficina Multisport e ao meu amor que não poupou esforços em me ajudar na logística para chegar no Paraguai e só precisar largar.

 

 

2009

MINHA PRIMEIRA CORRIDA DE AVENTURA

PEDRO LAVINAS -  BRASÍLIA OUTDOOR ADVENTURE

Eu era semi-sedentário (e beberrão) até os 29 anos. Pesava 12kg a mais que hoje. Morava em São Paulo e a vida se resumia àquela rotina padrão de estudo, trabalho, boteco, restaurante... era divertido, tinha bons amigos, namorava. Queria fazer algo diferente, mas não sabia bem o quê.

Gostava de espantar a ressaca aos domingos caminhando no Ibirapuera com Homer & Sofia (eram filhotes na época!). Um pouco de natureza me fazia bem. Lembrava que gostava de andar de bike na adolescência em Brasília, mas nada de mais: era ali pelas quadras mesmo, aos domingos no eixão, a maior aventura tinha sido ir do final da asa norte ao zoológico e voltar. Lembro do senso de realização, foi legal.

Já tinha tentado natação e musculação mas achava chatérrimo. Pagava plano trimestral e a assiduidade não durava um mês. Jogava tênis às vezes, fiz aulas, adorava assistir aos lendários embates Federer x Nadal. Gostava, sim, mas sabe aquela sensação de "ainda não é isso"?

Vi por acaso no falecido Orkut a foto de um colega de faculdade numa bike com a a legenda "Adventure Camp" e fui ao Google ver que diabo era aquilo: uma corrida de aventura (de 50km): bike, corrida, caiaque e rapel. Na natureza. Em equipe. Na hora tive certeza: é isso.

Mostrei aos amigos de boteco e o veto foi unânime. Entre os nerds, a mesma coisa. Mas finalmente, comentando com um colega de sala e um calouro que morava com ele (o Luís), o calouro acabou topando: por que não? Entramos em contato com o organizador (grande Zolino!), que arrumou uma aula de caiaque pra gente na raia da USP e nos colocou em contato com um casal -também iniciante - que queria montar um quarteto (só tinha essa categoria). Mandei revisar uma bike que usava 10 anos antes pra ir pra faculdade, comprei alguns equipamentos meia-boca e fomos. Meus treinos: três pedais entre 10 e 20km no asfalto da USP e duas corridas entre 3 e 5km no parque Ibirapuera. Joelho doeu. Mas já estava inscrito. Fomos.

A prova foi em São Luiz do Paraitinga, linda cidade histórica na Serra do Mar. Já imagina, né? Montanhas e mais montanhas. Na véspera, participei da clínica de aventura que a organização oferece: o básico do básico de navegação (eu nunca tinha visto uma bússola na vida!), dicas elementares de mountain bike sobre como descer sem capotar por cima da roda da frente e como passar marchas sem quebrar a corrente (isso eu já sabia mas só tinha pedalado no asfalto) e uma aula de caiaque em que suspeitei - e a suspeita se confirmou no dia seguinte - que desceria os 10km de rio girando feito hélice de helicóptero. Só após algumas provas (sim, eu não treinava canoagem e só encontrava o caiaque nas provas - que erro!) é que fui aprender a "fazer o leme". A clínica foi divertida, saímos animadíssimos e esperando uma aventura épica no outro dia.

À noite pegamos o mapa, assistimos ao briefing e tentamos mentalizar o que faríamos. Eram frequentes expressões como "estamos lascados, vamos ficar perdidos nesse mato pra sempre!" ou "avisem minha mãe que meu cadáver ficou no PC7" em meio a muitas risadas.

Chegando na arena, foi interessante perceber que lá na frente tinha pessoas com, digamos, físico e cara de atletas mas uma boa parte era como nós: pessoas na faixa dos 30 anos barriguinha de cerveja, querendo curtir sem pretensão essa atividade que pra mim era um misto de esporte e passeio e que, pouco tempo antes, eu nem sabia que existia.

A largada era de trekking, subindo um morro gigante (ou pelo menos parecia gigante pra mim na época, ainda quero voltar lá pra conferir) até uma antena onde estava o PC1. Logo percebemos que caminhar era normal nesse esporte. Mesmo no plano, notamos que navegar correndo era bem mais difícil. O máximo era um trotinho no estradão quando sabíamos estar no caminho certo.

No PC2 pegamos as bikes e a prova de habilidade social - a modalidade mais difícil da corrida de aventura - começou. A menina da equipe, em cada subidinha, descia pra empurrar a bike. Eu e o Luís íamos na frente e dizíamos "f#*$&, só vamos terminar semana que vem essa bagaça". Descobri que ela não sabia passar as marchas, tentei ensinar mas digamos que eu não estava muito paciente. E desse jeito, não adianta. Logo percebi e mudei a estratégia. Deixei-a à vontade e aos poucos ela foi arriscando, trocando catraca, trocando coroa, até que só precisávamos empurrar quando era bem íngreme mesmo. Ótimo.

Depois fizemos mais um trekking com visual incrível e, não sei como, conseguimos por pouco passar o horário de corte. Maravilha! "Full Course" pra nós!

Chegamos pra remar. Como a organização não tinha caiaques pra todo mundo, olha a bizarrice: dois remam e os outros dois levam as quatro bikes até a metade do trecho de canoagem; depois reveza. Bom, vamos nessa! Não conseguia por nada no mundo ir reto com o maldito duck (caiaque inflável) mas a correnteza foi levando e chegamos na metade. Foi uma grande odisseia levarmos em dois as quatro bikes. Escolhemos pedalar uma e segurar o guidom da outra, indo devagar. Caí algumas vezes, derrubei a bike em outras, mas pior que foi divertido. Ficamos perdidos num milharal e, como estávamos bem pra trás, não víamos mais nenhuma outra equipe. A tarde já caía, estávamos bem cansados. Acabamos nos encontrando e chegamos no PC11 quase anoitecendo. Teríamos que ir até o PC12 mas no caminho a caminhonete da organização nos abordou. Na hora pensei que iam jogar as bikes na caçamba e nos levar de volta pra arena, o que seria frustrante, mas não. Perguntaram se tínhamos lanterna (sim), se era boa (maaais ou meeeeeenos), se sabíamos onde estávamos (acho que sim, mostrei e ele conferiu). Nos escoltou um pouco e depois acelerou. Pedalamos felizes até a linha de chegada, que - claro - passamos em último, após 12h de prova.

Ao cruzar o pórtico (inflável), ele foi esvaziado. Recebemos a medalha e fomos jantar sem banho. Estávamos acampados meio longe, sem chance de ir e voltar. Recebemos palavras de incentivo e descobrimos - impressionados - que quem ganhou a prova fez o percurso em 4h: um terço do nosso tempo!

Voltando a São Paulo, fiquei uma semana descendo escada de costas, tamanha a dor nas pernas. Ficava no Google Earth com o mapa na mão tentando achar todos os PCs, os caminhos, as montanhas, os rios. Mostrava empolgadíssimo pros colegas mas eles não compartilhavam da minha empolgação. Azar deles. Comecei a me acostumar com as perguntas: no mato? Molhado? Lama? Mas pra quê?

Até hoje não sei pra quê, mas quem disse que preciso saber? As melhores coisas da vida são "porque sim". Mesmo que eu soubesse explicar, quem pergunta não entenderia mesmo a resposta.

Na outra semana me matriculei na Selva Aventura, assessoria esportiva especializada em corrida de aventura, lá em São Paulo. Fui fazendo amigos, treinando, evoluindo. Mudei completamente a minha rotina e não tenho dúvida de que pra melhor, deixando pra trás velhos hábitos e me sentindo muito mais disposto pros desafios da vida. E o que veio daí pra frente é assunto pra outros posts...

PS.: Vou tentar revirar HDs antigos pra encontrar fotos dessa odisseia... se encontrar, atualizo aqui.

 

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